NMM - Reflexos...
Esta foto é da Gisberta Salce, imigrante brasileira, nascida na cidade de São Paulo há 46 anos. A busca de uma vida melhor trouxe-a para Portugal faz muito tempo. A foto é, segundo os amigos, um reflexo da Gisberta, uma pessoa alegre conhecida pela sua educação e cordialidade.Como tantos brasileiros, veio para Portugal em busca de uma vida melhor, mas como tantos brasileiros (e outros) não conseguiu passar de uma imigrante num país estrangeiro. A ‘aventura portuguesa’ não teve o sucesso esperado. A prostituição foi uma saída, depois veio a toxicodependência, a hepatite, o HIV e finalmente a situação de sem‑abrigo.
A Gisberta morreu no passado mês de Fevereiro, encontrava-se no ‘fundo do poço’. Ironicamente foi no fundo de um poço que foi encontrada, dois dias depois de ter sido espancada, queimada com cigarros e sofrido sevícias sexuais. Os agressores foram 14 ‘crianças’ das Oficinas de S. José. A Gisberta é o ‘homem sem-abrigo’ que os média apresentam como tendo sido assassinado no Porto, no estacionamento de uma obra onde dormia e se prostituía. A Gisberta era transsexual. Não era travesti, era uma mulher transsexual. E morreu porque era diferente e estava muito fraca. A tuberculose e o HIV tiraram-lhe a força de outros tempos para se defender de quem se sentia ofendido pela sua diferença. Não era a única sem-abrigo no local, mas era a imagem do ser ‘desviado e desviante’ e era indefesa.
Este caso é um reflexo de uma sociedade envergonhada, com vergonha de si e com vergonha dos seus. A comunicação social recusa-se a dar um rosto à Gisberta, porque o homem era uma mulher, porque se tem de preservar as ‘crianças’ das consequências dos seus actos (e os responsáveis pelo vazio ético/moral em que essas crianças foram criadas), porque não se pode admitir (nem por breves momentos) que vivemos numa sociedade em que se pode morrer por se ser diferente e em que os crimes de ódio sexual (racial e outros) existem.
Muito se falará das ‘crianças’, do estatuto da criança, das mediocridades das instituições de acolhimento de menores (em especial as da igreja) e esta sem-abrigo irá cair no esquecimento. Por isso, porque também pertenço a esta sociedade, porque também me sinto envergonhado pelo sucedido, decidi fazer um ‘post’ com uma foto que não tirei e mostrar o rosto da Gisberta (mesmo que apenas aos visitantes deste blog). É o mínimo que posso fazer. Não faço ideia de quem tirou a foto, mas acho a foto bonita, porque parece o reflexo de um momento feliz. Chamava-se Gisberta Salce…

5 Comments:
Nuno.
Bola ao lado. Na minha opinião, claro!
Caro BAF,
Os caminhos da expressão "artística" são tudo menos lineares. A literalidade impede que se quebrem barreiras e deixa-nos mais pobres...
Não quero deixar de ter a possibiidade de ver laranjas onde outros vêm pêras... E muito me apraz saber que outros vêem para além do que eu vejo.
No mês de Janeiro estive em Madrid e um dos temas em debate era justamente a violência de jovens sobre os sem-abrigo. Falavam também da responsabilização de tais actos bárbaros! Tais acontecimentos são uma regressão da nossa civilização...estas pessoas deviam ter todo o nosso respeito e consideração.
Nuno como eu te respeito por seres assim. Ainda bem que vês sempre este lado da vida....que muitos teimam em não ver...
Eu chamaria a este Post Reflexos de Nós Mesmos.
Não há foto a comentar, apenas um acontecimento trágico pelo quanto vale cada vida humana, por isso mesmo fico-me por este comentário parco. ;-)
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